sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O mistério da casa mal-assombrada

"À noite, o espectro vagava pela solidão" — isto dito assim, parece Shakespeare, mas não é. Trata-se do trecho de um dos contos de assombração que Tia Zulmira escreveu recentemente.

Aliás, a sábia macróbia da Boca do Mato tem um talento que às vezes se confunde um pouco com o do autor de "Hamlet". Não é o caso, porém, quando se trata dos referidos contos mal-assombrados que a velha deu para fazer agora. Para que vocês tenham uma idéia, este seu sobrinho e difusor transcreve abaixo um deles:

"O casal mudara-se para aquela casa velha havia dois meses e nunca soubera antes que a casa tivesse fama de mal-assombrada. Se soubesse, talvez não tivesse alugado o imóvel, mesmo porque o casal não era inglês, que é tarado por fantasma. Na Inglaterra, um castelo mal-assombrado é sempre alugado mais caro, porque lá é "bem" o chamado contato social com espectros.

A casa de que falo, no entanto, era em Brás de Pina, onde fantasma tem menos cartaz que o time do Canto do Rio.

Mas — dizia — talvez os novos inquilinos não tivessem alugado o imóvel. Não que o casal acreditasse nessa besteira de assombração; tanto o distinto como a esposa (que ele, no mau gosto inerente à plebe ignara, chamava de "minha patroa") eram pessoas de certa idade. Sabem como é: depois de várias baianadas da vida, algumas pessoas já não acreditam em azar e chutam despacho com farofa amarela, galo preto e charuto barato com a mesma displicência de um jogador de futebol batendo bola antes do treino.

Mas havia a filha, mocinha de 20 anos, muito nervosa e que, quando soube que a casa tinha fama de abrigar figurinhas fantasmais, ficou mais nervosa ainda. Os pais não sabiam que havia fantasma em Brás de Pina, porque quem já morou em Brás de Pina nunca mais quer voltar e, muito menos, depois que já morreu. Vai daí, foram morar na casa.

Já viviam ali há uns dois meses quando, uma tarde, a mocinha voltava da fila do leite, onde aguardara, durante quatro deliciosas horas, a sua vez de comprar um litro, e — no caminho — encontrou a vizinha. A vizinha era mais fofoqueira que mãe-de-vedete-argentina-do-teatro-rebolado. Mal começou a conversar com a mocinha nervosa, perguntou se os fantasmas apareciam muito ultimamente

— Que fantasmas???!!! — perguntou a mocinha, já apavorada.

Aí a vizinha explicou a fama da casa, explicou que ali costumavam aparecer almas penadas pelos corredores, depois de meia-noite, e havia mesmo uma assombração que era famosa, pois aparecia com uma regularidade de cobrador da Light (mesmo em época de racionamento).

Está na cara que a mocinha nervosa entrou em casa tremendo às pampas. Inclusive, diga-se, a mocinha era dessas nada desprezíveis. Pelo contrário, era assim o número que a gente calça; tamanho universal, muito mais pra boa do que pra intelectual. Por isso que as pernas que tremiam eram até muito bem torneadas. Quando ela entrou foi aquele escarcéu. Choradeira, tomada de calmante, os pais dizendo que aquilo era bobagem, etc.

O fato é que, daquele dia em diante, toda noite os moradores ouviam estranhos ruídos e até o velho, que era cético de doer, começou a acreditar mesmo que a casa era visitada por uma assombração.

A mocinha, no entanto, embora reclamasse muito da onda noturna, estava cada vez mais viçosa. Deixou de ser nervosa e havia em seus reclamos uma certa falta de convicção.

Um dia, o velho, pela manhã, encontrou uma ponta de cigarro no corredor; como ele não fumasse (nem fantasma fuma), desconfiou de que ali havia lingüiça por debaixo do feijão.

De noite ficou na sala, escondido atrás de uma cortina, espiando. Pouco depois entrava na casa a assombração. Era um sargento da aeronáutica.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.

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