quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Júnior, o Discípulo dos Deuses


O mais digno herdeiro da camisa de Nílton Santos também amava atacar. Fez da lateral esquerda o caminho mais fácil para os gols. Ágil, toque de bola perfeito, especialista em cruzamentos e cobranças de falta, Júnior acabou, por força de toda sua categoria, passando ao meio-de-campo, com a camisa 10 que foi de Zico. No Flamengo, ganhou seus principais títulos: seis Campeonatos Cariocas, quatro Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial (ambos em 1981). Já no meio-campo e jogando pelo Torino, foi escolhido o melhor jogador da temporada italiana de 1984/85.

Júnior (Leovegildo Lins da Gama Júnior), craque do futebol de campo e de areia e comentarista esportivo, nasceu em João Pessoa, PB, em 29 de junho de 1954. Como jogador era ambidestro e polivalente. A facilidade para jogar bem com as duas pernas o permitiu atuar como volante, lateral-direito e esquerdo, e meio-campista. Jogador de extrema técnica e rara habilidade, tinha grande visão de jogo, precisão nos passes, e era ótimo cobrador de faltas e escanteios (tendo feito inclusive alguns gols olímpicos).

Fez fama atuando pelo Flamengo, onde jogou 865 partidas, sendo o jogador que mais vezes vestiu a camisa rubro-negra. Em sua primeira passagem, ele ficou no clube até 1985, quando foi vendido para o Torino, da Itália. Nos anos em que jogou no Torino, clube italiano, Júnior impressionou o país com o seu grande futebol. Prova disso é a homenagem que recebeu no centenário do clube. Depois, ainda teve uma rápida passagem pelo Pescara, do mesmo país.

Em 1989, aos 35 anos e a pedido de seu filho, que nunca o vira jogar pelo Flamengo, Júnior voltou para comandar a equipe rubro-negra nas conquistas da Copa do Brasil de 90, o Campeonato Estadual de 91 e o Brasileirão de 92.

Em 1992, atuando como meia, liderou o Flamengo ao tetracampeonato, no Brasileirão daquele ano. Tal fato é considerado um feito, tendo em vista a idade avançada do então meia, com 38 anos. Neste último foi um autêntico maestro, pois de seus pés surgiriam as jogadas que surpreenderiam os rivais na reta final daquele campeonato. Fez, inclusive, um dos gols do 1o jogo da final. O "Vovô-Garoto", como ficou conhecido na segunda fase em que esteve no time rubro-negro, viveu muitos dias de glória no clube, fazendo 74 gols ao todo com a camisa rubro-negra.

Encerrou a carreira de jogador em 1993 e no mesmo ano assumiu a função de treinador do time substituindo Evaristo de Macedo e ficou no clube até 1994. Retornou ao clube em 1997 no lugar de Joel Santana. Foi ainda técnico do Corinthians em 2003, mas após 3 rodadas, entregou o cargo. Em 2004 assumiu a função de gerente de futebol do Flamengo ficando na função até o final daquele ano.

Sem muito sucesso como técnico/manager de futebol, em 2007 retornou como comentarista do canal SporTV e PFC. A partir de 2009, com a saída de Sérgio Noronha, foi transferido para a equipe de esportes da Rede Globo, sendo o comentarista titular dos jogos de times do Rio de Janeiro.

Pela Seleção Brasileira, Júnior jogou 88 partidas entre os anos de 1979 e 1992, registrando oito gols. Fez parte de um dos maiores times que o futebol já produziu: a Seleção Brasileira de 1982. Participou das Copas do Mundo de 1982 e de 1986.

Depois de sua aposentadoria dos campos, Júnior partiu para uma grande empreitada: a de alavancar o até então incipiente futebol de areia à condição de esporte reconhecido e sucesso de público. Participou das primeiras grandes conquistas da seleção brasileira de Beach Soccer, tendo depois a companhia de outros grandes craques do campo, como Zico e Cláudio Adão.

Júnior também fez sucesso fora dos gramados e areias como cantor. Em 1982, poucos meses antes da Copa do Mundo da Espanha, gravou o compacto com a música Povo Feliz, que ficou mais conhecida como "Voa Canarinho". A música virou a trilha sonora da Seleção Brasileira naquela Copa e o compacto vendeu mais de 800 mil cópias.

Atualmente, trabalha como comentarista esportivo da Rede Globo, substituindo Sérgio Noronha, que foi para a Rede Bandeirantes.

Títulos pelo Flamengo

Copa Intercontinental.svg Copa Européia/Sul-Americana 1981
Liberators Cup.svg Copa Libertadores da América 1981
Campeonato Brasileiro: 1980, 1982, 1983,1992
Copa do Brasil: 1990
Campeonato Carioca: 1974, 1978, 1979, 1979 (especial), 1981, 1991
Taça Guanabara: 1978, 1979, 1980, 1981, 1982
Taça Cidade do Rio de Janeiro: 1973,1978,1991,1993
Rio de Janeiro Taça Rio: 1978,1991
Rio de Janeiro Segundo Turno Campeonato Carioca: 1978
Espanha Torneio Cidade Palma de Mallorca: 1978
Espanha Troféu Ramón de Carranza: 1979,1980
Rio de Janeiro Taça Pedro Magalhães Corrêa: 1974
Goiás:Torneio de Goiás: 1975
São Paulo:Torneio de Jundiaí: 1975
Mato Grosso:Torneio de Mato Grosso: 1976
Brasil Taça Geraldo Cleofas Dias Alves: 1976
Rio de Janeiro Taça Luiz Aranha: 1979
Rio de Janeiro Taça Jorge Frias de Paula: 1979
Rio de Janeiro Taça Innocêncio Pereira Leal: 1979
Rio de Janeiro Taça Organizações Globo: 1979
Espanha Torneio das Astúrias: 1980
Rio de Janeiro Taça Sylvio Corrêa Pacheco:1981
Espanha Torneio de Algarve: 1980
Espanha Troféu Cidade de Santander: 1980
Itália Torneio de Nápoles: 1981
Uruguai Copa Punta del Este: 1981
Paraguai Brasil Taça Confraternização Brasil-Paraguai: 1982
Argentina Brasil Troféu Brasil-Argentina: 1982
Alemanha Copa Porto de Hamburgo: 1989
Estados Unidos Copa Marlboro: 1990
Japão Pepsi-Cup: 1990
Japão Copa Sharp: 1990
Minas Gerais Torneio Quadrangular de Varginha: 1990
Rio de Janeiro Torneio de Verão de Nova Frigurgo: 1990
Rio de Janeiro Copa Rio: 1991
Rio de Janeiro Taça Estado do Rio de Janeiro: 1991
Rio de Janeiro Campeonato da Capital: 1991,1993
Paraná Troféu Brahman de Campeões: 1992
Rio de Janeiro Troféu Eco-92: 1992
Argentina Taça Libertad: 1993
Rio de Janeiro Troféu Raul Plassman: 1993

Fontes: Revista Placar; Wikipédia.

A volta do Dia da Sinceridade

Vocês queiram perdoar, sim? Queiram perdoar, mas vamos continuar imaginando coisas sobre o "Dia da Sinceridade", cujo bolamos em momento dos mais inspirados, escudados que estávamos na certeza de que dias como o "Dia das Progenitoras", "Dia da Reconciliação", "Dia do Papai" e outros de some-nos não tinham a menor importância do ponto de vista cívico, e, sim, do ponto de vista comercial.

Com aquela disposição de que sempre nos munimos, quando se trata de auxiliar o próximo a ter idéias mais felizes, bolamos o "Dia da Sinceridade", que não tem o mínimo cunho comercial e — muito pelo contrário — ajuda os leitores que aderirem a burilar o caráter, elemento da personalidade de cada um que — segundo Tia Zulmira — está para a consciência do indivíduo assim como a gomalina está para a cabeleira do Al Neto.

O "Dia da Sinceridade" lavará a alma de muita gente, mesmo essa gente inibida que passa o dia mentindo para conservar os honorários, tais como garotas-propaganda, locutores de rádio, ministros de Estado, vendedores ambulantes e cronistas mundanos. Isto para somente citarmos classes mais ou menos definidas dentro do panorama da insinceridade nacional e — por que não? — internacional.

No "Dia da Sinceridade", talvez para evitar futuros aborrecimentos, não seria conveniente visitar parentes, mas seria de boa monta entrar na Câmara dos Deputados e conversar um pouco com o deputado em quem votamos. Seria de bom alvitre também ligar o rádio para a Rádio Mundial e ouvir as pregações do Irmão Alziro Zarur.

Somos de opinião que um dia assim viria descomplexar (ou será extracomplexar? Verifique aí, Osvaldo) diversas classes trabalhadoras, como, por exemplo, a classe dos que vendem calçados. Isto é um exemplo, conforme vocês podem notar, trazido assim a esmo, só para melhor esclarecer a massa ignara.

Os vendedores de sapatos que, conforme tão bem assinalou o poeta Vinícius de Moraes, parecem Madalenas arrependidas pedindo perdão pelos sapatos, já que se ajoelham na frente do freguês para experimentá-los (não os fregueses, mas os sapatos), vivem na insinceridade. No entanto, vitoriosa a idéia do "Dia da Sinceridade", mesmo em sua postura costumeira, e talvez por causa dela, diriam para a dama elegante que insiste em comprar o sapato de couro de camelo: — Madame, não vai nessa. Esse camelo nasceu cavalo.

O modelo é uma fábrica de calos e o sapato entorta mais que boca de cantor de tango. A senhora compradora não se espantaria, pois era o dia supracitado, e agradeceria com um sorriso, não sem antes botar na mão do vendedor uma nota de duzentas pratas, aconselhando:

— Vá a um dentista, nego. Daqui de cima é que se tem uma idéia panorâmica de suas cáries.

O vendedor faria uma reverência, já de pé, e antes que a freguesa fosse embora, perguntaria risonho:

— A senhora não quer examinar a nossa coleção de ferraduras?

Grande dia, companheiros, o "Dia da Sinceridade".
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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

O Dia da Sinceridade

Quem não tem o que fazer deu agora para inventar "dia". Um vereador — cujo nome esquecemos — propôs a oficialização do "Dia do Acidentado", explicando que, nesse dia, todos iriam aos hospitais visitar os doentes passíveis de visitas e perturbar os doentes que não podem receber visitas. A idéia, que ao vereador deve ter parecido luminosa, não foi sequer levada a sério pelos seus coleguinhas edis. Felizmente.

Já nossa amiguinha Graciette Santana quer o "Dia da Progenitora", como se já não bastasse o "Dia da Genitora", onde as progenitoras já estão incluídas porque a condição primordial para a mulher ser progenitora é ser genitora anteriormente, detalhe que — queremos crer — escapou à Dona Graciette. Lamentável.

Outro que lançou "dia": Antônio Maria. Prenhe de boas intenções, o Arcebispo do Sacha's quer o "Dia da Reconciliação", conforme ele mesmo expôs em bem traçadas linhas. Será o dia em que cavalheiros mais ou menos em crise de amizade com outros tantos cavalheiros farão as pazes em lugar público; dia em que ferrenhos desafetos se abraçarão para legalizar o fim da briga etc. etc.

E como é bom demais para abençoar os outros, o próprio inventor do "Dia da Reconciliação" irá para o interior na data dos reencontros, para não ter que fazer as pazes com ninguém. Ele não confia nos inimigos, infelizmente.

Já a flor dos Ponte Pretas, que também se sentia meio jogado fora, resolveu criar um diazinho, para ficar atualizado e não ser passado para trás. Por isso mesmo imaginou o "Dia da Sinceridade", dia que — temos certeza — contaria com a adesão incondicional de todos, mesmo com a adesão do vereador, da Irmã Graciette da Emissora "Jesus Está Chamando" e do Antônio Maria.

No "Dia da Sinceridade" aconteceriam coisas surpreendentes. Você ligava a televisão e veria uma garota-propaganda com um sabonete na mão, dizendo que o dito não faz espuma, tem um perfume muito do rebarbativo e o preço é extorsivo.

Depois outros anúncios sinceros, seguidos de entrevistas sinceras, ocasião em que os arnaldos nogueiras do vídeo anunciariam assim seus convidados: está aqui ao nosso lado um dos maiores ficeleiros do PSD, que vai explicar a negociata que fez ontem no Ministério da Fazenda. Os jornais também seriam sinceros, principalmente os da imprensa sadia, cujos teriam um dia de reabilitação, pelo menos.

Jogadores de futebol fariam declarações importantes, explicando que detestam o clube a que pertencem, que farão tudo pela vitória porque o bicho é melhor quando vencem, mas que o adversário tem um time melhor e, por isso mesmo, vão tacar o pé no inimigo para intimidá-lo. E acrescentarão: a chave é essa, o técnico que se dane, pois quem vence jogo é jogador e não técnico.

Revistas especializadas diriam o que acham de Emilinha, contariam como fazem reportagem com Cauby; cronistas mundanos falariam de suas listas de "dez mais" com completa isenção de ânimo; candidatos a eleições colocariam na rua faixas com dizeres que espelhassem seus sentimentos cívicos e nos petits comitês, os que vivem nos riversides da vida, trocariam idéias entre si e sobre si, sem qualquer futuro ressentimento.

Nesse tão saudável "Dia da Sinceridade", por nós imaginado, Stanislaw passaria despercebido e, para culminar a comemoração, haveria discurso do Presidente na "Voz do Brasil". Credo!
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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

O único De Gaulle

Uma das maiores festas populares do velho Rio era o "grande enterro". Não sei se me faço entender. Falo de uma cidade ou de um Brasil que passou até o último vestígio. Era ainda o tempo do barão do Rio Branco, de Pinheiro Machado, de Oswaldo Cruz, Patrocínio, Rui (digo os nomes, ao acaso, sem nenhuma cronologia). E, quando morria um dos citados, a cidade vinha, radiante, enterrar o "grande homem".

Claro que ninguém chorava o defunto oficial. E, por todo o itinerário fúnebre, ou falsamente fúnebre, havia uma euforia louca. Os moleques, trepados nos postes e nas árvores, avisavam: — "Evém! Evém!".

Mas eu disse que ninguém chorava o "grande homem" e já retifico: — as velhinhas choravam, sim, o cadáver monumental. Foi assim quando morreu o barão do Rio Branco.

Naquela época, ainda tínhamos o instrumento da reverência, que era o chapéu. Podia ser um enterro de quinta classe. E cada qual se descobria diante da morte. Ninguém morria sem que toda uma cidade o cumprimentasse.

Mas eu estava falando de que mesmo? Ah, de Rio Branco. Segundo se afirma, foi o maior enterro do Brasil, em qualquer tempo. O velho barão era o "grande homem" até fisicamente. Bem me lembro de que, na minha infância, o que mais me fascinava em Rio Branco era a barriga. Hoje, temos um preconceito cardíaco, não sei se justo ou iníquo, contra o barrigudo. Os clínicos costumam fazer a restrição pressaga: — "Você está muito gordo".

No velho Rio, porém, a barriga era um mérito a mais do ministro, do homem de Estado, do senador. E, naquele dia, ninguém ficou em casa, ninguém, e só as velhinhas choravam. O resto exultava com a mise-en-scène funeral. Mas eis o que eu queria dizer: — hoje, seria talvez impossível um enterro parecido. Cabe então a pergunta: — e por quê?

Vejamos. Outro dia fui a um sarau de grã-finos na Lagoa. Houve um momento em que faltou assunto. E, então, alguém falou, precisamente, dos velhos enterros do Brasil.

Citou os do Barão, de Rui, de Pinheiro Machado etc. etc. Havia lá um escultor português. Este gostaria de ter assistido aos funerais de Inês de Castro. A dona da casa (bonita demais para ser feliz) confessou que não vira, jamais, um "grande enterro".

Em seguida, alguém propôs uma revisão dos nossos "grandes homens". Houve a dúvida: — "Vivos ou mortos?".

Convencionou-se que só interessavam os vivos. E começou uma busca frenética. No fim de uma hora os nomes lembrados dariam para encher uma lista telefônica. E começou um processo de angústia. Mais um pouco e se insinuou a dúvida: — "Será que, no Brasil, ninguém é grande homem?". Até que, cerca das quatro da manhã, chegou-se à síntese desesperadora: — não temos o grande enterro porque nos falta o grande morto. O anfitrião repetia, vagamente humilhado: — "O Brasil não tem um grande homem para
enterrar".

Saímos já ao amanhecer. Vim, com mais dois ou três, numa carona amiga. O dono do carro ainda gemia, numa irada frustração: — "É impossível que o Brasil não tenha um grande homem". Nenhum povo pode viver sem o grande homem. Um outro sugeriu a hipótese consoladora: — "Quem sabe se não há, por aí, um gênio inédito?". Protesto do dono da carona: — "A primeira virtude do grande homem é não ser inédito".

Quando saltei do carro, na porta de casa, já tínhamos renunciado ao grande homem brasileiro. E, agora mesmo, ao bater estas notas, estou com o problema na cabeça. Lembro-me então de uma das recentes passeatas, justamente a mais concorrida, a dos "100 mil".

Estavam, ali, eretas as nossas elites. Eram estudantes, poetas, romancistas, professores, sacerdotes, arquitetos, médicos, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, cineastas.

Do alto de uma sacada, um observador podia imaginar: — "São os que pensam". E, de fato, era o Brasil pensante que desfilava. Pasmado, cochichei para o meu companheiro Raul Brandão, o pintor das igrejas e das grã-finas: — "Vai haver o  O meu raciocínio era justo. Cem mil brasileiros não se juntam para nada. Imaginei que ia começar, ali, a "Grande Revolução".

Até que se ouviu a palavra de ordem: — "Vamos sentar". A docilidade foi total. E as nossas elites sentadas eram de um efeito plástico inesquecível. E, depois, veio a ordem inversa: — "Levantar". Tal e qual no anúncio do "senta e levanta". Ninguém queria tomar o poder, absolutamente. Uma vez que se tinham sentado e levantado, os 100 mil se deram por satisfeitos e cada qual foi para casa.

Se os que pensam agem e reagem assim, que dizer dos que não pensam? Sim, que dizer do pobre-diabo, do homem de rua, do pé-rapado, do sujeito mais obscuro do que um cachorro atropelado?

Finda a passeata das elites, o Raul Brandão esbravejou: — "O importante, no Brasil, não é o grande homem, mas, inversamente, o pobre-diabo, o homem comum, o torcedor do Flamengo, o analfabeto". Arquejava de uma fúria sagrada contra as elites.

Eis o que eu gostaria de dizer: — passou a época do grande homem, e não só no Brasil. Também no mundo. Recentemente, vimos a nova "Revolução Francesa". Os estudantes viravam a pátria de pernas para o ar; e, logo, 12 milhões de operários entraram em
greve.

Estudantes chamavam De Gaulle de "o assassino". O poder estava indefeso. Mas ninguém o tomou, ninguém. E por quê? Simplesmente porque, entre milhões, não havia um único e escasso grande homem. A França teve que se atirar, outra vez, nos braços de De Gaulle. Sim, o velho De Gaulle, único grande homem francês.

Na minha mesa está uma revista de Paris. E, lá, vem um artigo confessional de Jean-Louis Barrault. Já falei, aqui, da sua "morte". Durante a "jovem revolução", o famoso ator, com um oportunismo muito pusilânime, tratou de adular a massa estudantil. O teatro Odeon, que ele dirigia, estava ocupado pelos jovens. E, então, Barrault subiu ao palco. Foi patético. Declarou que, a partir daquele momento, deixava de ser Barrault. De fronte alçada, completou: — "Barrault morreu". Saiu dali e foi comer um bom bife na esquina.

Quinze dias depois, não havia mais greve, não havia mais nada. Barrault, falso grande ator, falso grande homem, teve o seu prêmio. Um outro intelectual, André Malraux, o chamou e deve ter dito mais ou menos isto: — "Rua! Rua!". E o artigo do  "morto" vem plangente de uma funda e inconsolável nostalgia do salário.

Seja como for, a "jovem revolução" ensinou-nos que a França é uma paisagem sem franceses ou, por outra, é a paisagem de um único francês: — Charles de Gaulle.

[27/9/1968]
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O fim do mundo

Calendário maia.
Apesar de todo o descrédito pela comunidade científica e até mesmo religiosa, muita gente esteve se preparando para o fim do mundo nas últimas semanas. 

Na China, a despedida foi mais tumultuada. Quase mil pessoas que integram uma seita conhecida como Deus Todo Poderoso, que acreditava piamente no fim do mundo em 21 de dezembro, apenas por coincidência com a profecia maia, chegaram a ser detidos em várias províncias chinesas. As autoridades da província de Qinghai, na região noroeste, anunciaram mais de 400 detenções na véspera do dia 21. Além disso, na província mais carente de Guizhou, 357 integrantes da mesma seita sendo investigados e detidos.

Na França, o vilarejo de Bugarach, teve o acesso pela montanha fechado. Isso porque existe uma crença de que, no momento em que o calendário encerrar na sexta feira (21), a montanha iria se abrir e de lá sairiam alienígenas. Além disso, os extraterrestes iriam levar para sua espaçonave os humanos que estiverem por perto. Centenas de policiais foram enviados para a cidade para reforçar a segurança, já prevendo o aumento do movimento na localidade, que conta com cerca de 200 habitantes. Os moradores do local precisaram ser munidos de passes especiais para transitar pelo vilarejo.

Um abrigo de 56 metros de profundidade, o Bunker 42 na Rússia, está promovendo uma grandiosa festa pelo fim do mundo, que deve durar dois dias. O local tem capacidade para receber 300 pessoas, os o ingresso é bastante caro: está sendo cobrado US$ 1.000 por pessoa, o que equivale a mais de R$ 2.000.

No vilarejo de Sirìnche, na Turquia, os moradores decidiram promover um novo vinho local, que tem o ano de 2012 como rótulo. O vinho é tinto e seco, com uma teor alcoólico mais alto que o normal, para ser consumido especialmente na sexta feira do fim do mundo.

Fonte: http://www.noticiasbr.com.br

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Do inquirir os querelantes

Não, isso também já é enveredar pelo perigoso terreno da galhofa — se é que vocês me permitem usar esta expressão de Tia Zulmira. Esse negócio de se arranjar uma comissão de inquérito para apurar o que estão fazendo as comissões de inquérito é muito chato. Desculpem, mas vamos mais uma vez usar a sábia parenta.

A velha e experiente Tia Zulmira, quando soube que se cogitou, de brincadeirinha, é claro, de uma comissão de inquérito para as comissões de inquérito da Câmara sentenciou:

— Há um dado momento em que se deve confiar, pra não piorar! Ora, a velha é fogo e sabe o que diz.

Ensinou bailado a Nijinsky, relatividade a Einstein, psicanálise a Freud, automobilismo a Juan Fangio, foi técnica de basquete dos "Globe Trotters", deu aula de tourada a Dominguín, explicou a Charlie Chaplin como se faz cinema e, na rebarba, ainda temperou a vacina para o Dr. Jonas Salk. Logo, não está aí para blablablá.

Se ela diz que, num dado momento, mexer a panela é pior que deixar no fogo lento, é porque esta é a melhor maneira de se proceder. Vivida como é, a excelente macróbia esteve a conversar conosco sobre esse círculo vicioso que, às vezes, causa a desconfiança excessiva. Lembrou então o que aconteceu com os pais de Primo Altamirando, menino que cedo foi viver com a tia, porque o casal foi à garra.

Deu-se — contou-nos ela — que Mirinho quando garoto já prometia que um dia seria isto que é hoje, razão pela qual seus pais resolveram arranjar uma babá de toda confiança para vigiar o agora abominável parente. Contrataram uma babá inglesa (até hoje ninguém sabe explicar por que certos casais acham que babá, pra ser de confiança, tem que ser inglesa)... mas — dizíamos — contrataram uma babá inglesa e estavam muito satisfeitos, até o dia em que acharam que era preciso ver se a babá era mesmo de confiança.

Então — porque era um antigo conhecido da família — chamaram o velho Crisanto (já falecido) para vigiar a babá.

Crisanto ia se desincumbindo satisfatoriamente do mister e nada teria acontecido se Altamiro, pai de Altamirando, não tivesse a idéia de conversar com a mulher a respeito da missão de Crisanto. Quem lhes podia garantir que o distinto estava mesmo vigiando a babá que vigiava Mirinho?

É... ninguém podia, pois ninguém vigiava o homem. E foi por isso que — usando da velha teoria de quem quer vai, quem não quer manda — Altamiro, pai de Altamirando, passou a sair para vigiar Crisanto, que vigiava a babá, que vigiava o menino.

Tudo ia muito bem, até o dia em que a mãe da criança resolveu espiar pra ver se o marido estava mesmo controlando o velho Crisanto. E qual não foi sua surpresa, ao descobrir Crisanto ninando Mirinho e Altamiro ninando a babá!

É... Tia Zulmira tem razão: num dado momento, deve-se confiar, para não piorar!

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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

O óleo de argan e nossa pele

Recente fenômeno no mercado de produtos de beleza para os cabelos, o óleo de argan - extraído de uma árvore típica do Marrocos - também pode ser uma boa opção para as pessoas que desejam deixar a pele mais hidratada e livre da ação negativa dos radicais livres. Rico em vitamina E, polifenóis e ácidos graxos essenciais, como o ômega 6 e 9, a maravilha do mundo árabe exerce a função de um poderoso antioxidante e anti-idade para a cútis do rosto.


Conhecido como “Ouro do Marrocos”, o ingrediente de origem vegetal tem ainda o poder de regenerar a membrana de proteção da pele, favorecendo a nutrição e a renovação celular. “Quando aplicado no rosto e no corpo, o óleo de argan cria uma espécie de filme protetor que impede a água de sair da derme, mantendo-a mais hidratada, macia e viçosa”, explica Valcinir Bedin, dermatologista e diretor do Centro Integrado de Prevenção do Envelhecimento (CIPE).

Além disso, os polifenóis presentes em sua fórmula são ótimos para proteger a cútis contra a radiação ultravioleta, assim como as propriedades anti-inflamatórias da vitamina E que ajudam a tratar infecções e acelerar o processo de cicatrização de feridas.

Como usar?

A fama dos benefícios da substância vinda da Arábia para a cútis tem feito a indústria de cosméticos lançar produtos enriquecidos com a substância para fins dermatológicos. De forma geral, o ativo pode ser usado sozinho na forma tópica ou com outros agentes. “Para uma pele jovem, o óleo de argan pode ser incorporado a um sérum, enquanto para uma cútis madura, ele deve ser usado no formato de creme. Os géis não são ideais, principalmente se a pessoa tiver o rosto oleoso”, destaca Adriano Almeida, dermatologista e diretor do Instituto de Pesquisa e Tratamento do Cabelo e da Pele (IPTCP).

Apesar de ser tão benéfico quanto o ingrediente usado para cuidar dos cabelos é importante lembrar que o óleo de argan para o tratamento dos fios é diferente do utilizado para a cútis. Por isso, é preciso ter o cuidado de verificar nas embalagens as indicações de cada item, pois em alguns casos eles podem ser muito oleosos para a aplicação no rosto.

Resultados e contraindicações

A ação nutritiva e os efeitos mais visíveis dos cosméticos feitos à base da substância são percebidos a médio e longo prazo. “A ideia desses itens é de regenerar a pele e evitar o seu envelhecimento exagerado, o que demora, pelo menos, de quatro a cinco meses”, destaca Valcinir.

Para obter os efeitos esperados com o óleo de argan, o uso dos produtos deve ser diário, pela manhã e à noite. No entanto, quem sofre com a oleosidade deve adotá-los apenas no período noturno.  “Além disso, vale lembrar que durante o dia, após a aplicação do ativo, o protetor solar deve ser utilizado para intensificar a proteção contra as radiações solares”, ressalta Adriano.

A substância é contraindicada para pessoas com alergias e ferimentos na cútis, por isso vale a pena aplicá-la numa pequena quantidade no braço para testar a aceitação da pele à fórmula.

Fonte: Agência Hélice / Terra

Alimentos que ajudam o sistema imunológico

Comer de forma adequada pode contribuir para que seu sistema imunológico fique sempre em dia. Não descuidar da ingestão de frutas e legumes, manter-se hidratado, entre outras dicas, é importante. Quer mais algumas boas ideias? Veja abaixo.


1. Iogurte

As bactérias saudáveis encontradas nesse tipo de alimento ajudam a manter seu trato digestório funcionando perfeitamente. Um estudo da Universidade de Viena, na Áustria, mostrou que 200 g de iogurte por dia podem ser o suficiente para que seu corpo fique mais saudável.

2. Aveia

A aveia é rica em betaglucana, uma fibra alimentar que tem características antioxidantes e antimicrobianas, diz um estudo feito pela Universidade de Oslo, na Noruega. Comer uma porção de aveia ao dia pode proteger contra a gripe, evitar que a herpes labial se desenvolva e melhorar a capacidade de regeneração dos tecidos do corpo.

3. Alho

A alicina contida no alho ajuda a proteger seu corpo contra infecções. O extrato de alho, ingerido durante 12 semanas, fez que um grupo de pessoas observadas em uma pesquisa da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, ficasse até três vezes menos suscetível ao resfriado. Estudos similares também indicam que a alicina pode diminuir os riscos de se desenvolver câncer colorretal e de estômago.

4. Peixe

O selênio, presente nos peixes e frutos do mar, ajuda as células do sistema imunológico a produzirem as citocinas, proteínas que agem contra inflamações virais. Além disso, alguns tipos de peixe, como o salmão, também contêm o ômega-3, que reduz o risco de inflamações e protege contra infecções respiratórias.

5. Chá

Um estudo feito pela Universidade de Harvard apontou que pessoas que tomam até cinco copos de chá-preto por dia têm os níveis de interferon (uma proteína que protege o corpo contra vírus e bactérias) aumentados em até 10 vezes. Outros chás, como o chá-verde, também induzem o organismo a produzir a L-teanina, outro aminoácido que é produzido durante o combate do corpo a agentes externos.

6. Canja de galinha

É como diz a música que você já conhece: prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Uma pesquisa feita pela Universidade de Nebraska, nos EUA, mostrou que durante o cozimento, a carne de frango libera um aminoácido chamado cisteína que ajuda os brônquios de pessoas gripadas a voltarem à normalidade. Se a canja for temperada com alho, cebolas e condimentos, a sensação de alívio é ainda maior. Viu só: vovó tinha razão.

Fonte: O que eu tenho?

Os falsos light

Comer bem e de forma saudável é o objetivo de todas as pessoas que procuram manter a forma com base na alimentação. No entanto, ao começar uma dieta, caímos em algumas armadilhas que sabotam qualquer processo de emagrecimento, principalmente por considerar alguns alimentos como pouco calóricos, quando, na verdade, não o são.


A atenção ao rótulo de alguns alimentos é fundamental para uma alimentação balanceada, mas a propaganda de alguns produtos industrializados leva os consumidores a acreditar que determinados alimentos contêm menos calorias do que realmente têm.

Na hora de comprar o produto, a dica é comparar a quantidade de calorias, sódio e gorduras, essa é a única forma de melhorar a qualidade do que comer na hora de escolher um produto. De acordo com a nutricionista Gabriela Cuesta, uma informação importante, mas pouco divulgada é que os ingredientes no rótulo aparecem em ordem decrescente, da maior a menor quantidade. "Se o primeiro item dos ingredientes for açúcar, por exemplo, é esse o ingrediente que aparece em maior quantidade na composição do alimento".

Nos biscoitos "cream crackers" os dizeres dos rótulos estão descritos como "leve", "água e sal" e "0% gordura". Segundo a nutricionista Gabriela Marcelino, do Congelados da Sônia, eles devem ser bem avaliados comparando os valores nutricionais. "Em algumas marcas o conteúdo de sódio e gorduras está em excesso", explica.

O mesmo acontece com o queijo branco, uma vez que, dependendo do fabricante, os teores de gordura e calorias podem variar significativamente. Normalmente eles contêm menos calorias e gorduras. "A escolha mais acertada devem ser a variedade dos brancos e, depois, as versões light", afirma.

Na escolha da bebida o cuidado também deve ser redobrado. Os famosos refrigerantes "zeros" não são vantajosos para quem quer emagrecer, pois possuem sódio em excesso, o que altera a pressão arterial e provoca inchaços no corpo. Para substituí-los, o suco natural é a opção mais nutritiva. Agora, se mesmo assim existir a preferência em consumi-los, é melhor escolher as versões diet/light e os refrigerantes incolores e/ou transparentes, pois não contém corantes.

A nutricionista Marcelino ressalta ainda algumas atitudes que aparentemente ajudam a emagrecer, mas que na verdade engordam. Confira!

1) Não tomar o café da manhã. O café da manhã é a primeira refeição do dia, nela deve ter carboidratos para dar energia e fazer o cérebro funcionar, proteínas para repor células de tecidos e órgãos, vitaminas e minerais para regular as funções vitais, fibras e água para colocar o intestino para funcionar.

2) Pular uma das principais refeições do dia (almoço e jantar) para "economizar" calorias para um evento especial pode comprometer a dieta;

3) Seguir dietas da moda. Radicalismo e dietas da moda não resolverão problemas a médio e longo prazo. Caso a pessoa esteja acima do peso, um nutricionista é o ideal para auxiliá-lo.

Fonte: Vila Mulher
Texto: Paula Perdiz

O incrível azeite de oliva

Imprescindível na salada e delicioso no macarrão, um bom azeite de oliva torna qualquer prato muito mais saboroso. Mas a estrela das receitas mediterrâneas vai muito além de um precioso tempero, já que especialistas garantem sua ação benéfica para o organismo - o alimento ajuda a prevenir especialmente as doenças cardiovasculares.


Segundo o médico cardiologista Maurício Jordão, do Hospital Samaritano de São Paulo, o azeite é praticamente isento de gordura saturada – aquela que é maléfica para o coração por aumentar os níveis do LDL, que é o “colesterol ruim”. Por outro lado, ele é fonte de gordura monoinsaturada que, por sua vez, diminui o LDL e aumenta o HDL – chamado de “colesterol bom”.

As variedades de azeite virgem e extravirgem – os mais puros – também apresentam altas concentrações de vitamina E, betacaroteno e polifenóis. E, de acordo com Jordão, é justamente essa associação de compostos que parece ser a responsável pela ação antioxidante e anti-inflamatória do azeite.

A nutricionista Juliana Ruas Dal’Mas, do Hospital Sírio Libanês, de São Paulo, reforça: “O azeite é rico em poliferóis, que previnem oxidações biológicas, reduzindo a formação de radicais livres. Estes, por sua vez, são muito nocivos à saúde, pois são responsáveis pelo envelhecimento e por doenças degenerativas”. Ela ainda destaca mais benefícios: “Ajuda na absorção das vitaminas lipossolúveis e na função imunológica”.

Claro que não podemos deixar os cuidados com o coração só por conta das refeições regadas a um bom azeite. “A medida mais efetiva para elevar os níveis de HDL, o colesterol bom, ainda é a prática regular de exercícios físicos aeróbicos”, lembra Jordão.

A melhor escolha

A chef e especialista em azeites Alessandra Abud, do Gaeta Masseria, de São Paulo, também ressalta os seus benefícios para a saúde: “Além do já comprovado efeito positivo para o coração, ele ainda tem o poder de retardar o envelhecimento. E mais: há quem diga que reduz os níveis de obesidade”. Mas há uma dose diária recomendada: “Use duas colheres de sopa diariamente em suas refeições. Essa é a quantidade indicada pelos especialistas, em geral, e é também o ideal para aromatizar pratos e saladas ao longo de um dia”, ensina Abud.

Dal’Mas concorda que esta é a porção diária adequada e, como nutricionista, faz questão de comentar sobre os cuidados com a ingestão: “O azeite é bem-vindo nas refeições, faz bem à saúde e, de fato, está no ranking de alimentos essenciais ao cardápio de quem quer ter uma vida mais saudável. Porém, é preciso controlar o consumo, já que também é calórico. Trata-se de um óleo e possui muitas calorias, como qualquer outro. E o exagero nunca é bom, mesmo no caso de alimentos saudáveis. Assim, mais do que duas colheres de sopa ao dia pode resultar em alguns quilinhos a mais”, alerta.

Particularmente, a chef paulistana prefere o azeite extravirgem frutado intenso. “Nas saladas, nos preparos dos pratos e também na hora de servir, é sempre indicado colocar um fio de azeite, o suficiente para conferir sabor e aroma deliciosos”.

Na hora da escolha, no entanto, a dona da Gaeta Masseria lembra que cada azeite possui seu grau de acidez e é preciso observar essa informação no rótulo das embalagens. “O extravirgem, por exemplo, não pode passar de 0,8% de acidez”. Então, quanto menor o grau, melhor o produto. Hoje em dia já é bem fácil encontrar nas prateleiras dos supermercados azeites de excelente qualidade, a preços competitivos e com grau 0,3% de acidez.

“A origem do azeite também pode ser observada, a fim de garantir a melhor qualidade”, explica a chef. “O melhor é adquirir azeites com a denominação de origem protegida (DOP), uma certificação que assegura que o produto é feito sob supervisão e regras definidas para colheita e produção”, orienta.

Fonte: Uol
Texto: Yara Guerchenzon

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O homem que pôs um ovo

Um marido tinha uma mulher muito gabola de saber guardar segredo. Vivia dizendo que as outras eram saco rasgado e ninguém podia confiar no juízo dela. Tanto se gabou e se gabou que o marido pensou em fazer uma experiência para ver se a mulher era mesmo segura de língua.

Uma noite, voltando tarde para casa, o homem trouxe um grande ovo de pata, que é muito maior do que os da galinha e deitou-se na cama. Lá para as tantas da madrugada, acordou a mulher, todo assustado e pedindo que ela guardasse todo segredo, contou que acabara de pôr um ovo! A mulher só faltou morrer de admiração mas o marido mostrou o ovo e ela acreditou, jurando que nem ao padre confessor havia de dizer o que soubera.

Ora muito bem. Pela manhã, assim que o marido saiu para o trabalho a mulher correu para a vizinha e, pedindo segredo de amiga, contou que o marido pusera um ovo na cama e estava todo aborrecido com essa desgraça. A vizinha prometeu que ninguém saberia mas passou o dia contando o caso, ao marido, aos vizinhos, aos conhecidos, sempre pedindo segredo.

E como quem conta um conto aumenta um ponto, toda vez que a história passava adiante o ovo ia mudando de número. Primeiro era um, depois dois, depois três. Ao anoitecer já o homem pusera meio cento de ovos. Voltando para casa, o marido encontrou-se com um amigo e este lhe disse que havia novidade naquela rua.

- Qual é a novidade?

- Não soube? Uma cousa esquisita! Imagine que um morador nesta rua pôs, penso eu, quase um cento de ovos, seu mano! Diz que está muito doente e que cada ovo tem duas gemas. É o fim do mundo.

O marido não quis saber quem estava de vigia. Entrou em casa, chamou a mulher, agarrou uma bengala e passou-lhe a lenha com vontade, dando uma surra de preceito, que a deixou de cama, toda doída e com panos de água e sal.

Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada. Por isso é que os antigos diziam que:

Quem tiver o seu segredo
Não conte a mulher casada
Ela conta ao seu marido
O marido aos camaradas...
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(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

Jane Fonda, a eterna Barbarella

Jane Fonda (Jane Seymour Fonda), atriz, escritora, modelo, ativista política e guru de exercícios físicos, nasceu na cidade de Nova York, EUA, em 21 de dezembro de 1937 e é filha do ator Henry Fonda e da socialite Frances Seymour Ford. Seu pai era descendente de holandeses e o sobrenome "Fonda" é originário de Eagum, uma vila no coração da Frísia, província do norte dos Países Baixos.

Iniciou sua carreira no cinema em 1960 no filme "Tall Story", ao lado de Anthony Perkins. Mais tarde, despontou como sex symbol com os filmes "Cat Ballou" (1965) e "Barbarella" (1968). Em 1971 recebeu seu primeiro Oscar de melhor atriz pelo filme "Klute". Em 1978 repetiria a façanha por "Amargo Regresso".

Em 14 de abril de 1950, quando tinha 12 anos de idade, sua mãe cometeu suicídio após voluntariamente buscar tratamento num hospital psiquiátrico. A ela foi dito que a mãe morrera de ataque cardíaco. As assinaturas de jornais e revistas na mansão dos Fonda foram canceladas e os professores e alunos da escola da jovem instruídos a não discutirem o incidente. Jane descobriria a verdade meses mais tarde, enquanto folheava uma revista de cinema na aula de artes.

Após a morte de Frances, Henry se casou com a também socialite Susan Blanchard ainda em 1950; o casamento acabaria em divórcio de cinco anos depois.

Aos 15 anos, começou a ter aulas de dança em Fire Island Pines, em Nova York. Ela estudou na prestigiada Greenwich Academy, um internato para garotas, em Greenwich, Connecticut.

Antes de dar início à carreira de atriz, foi modelo nos anos 1950, tendo estampado a capa de diversas revistas de moda, entre elas a Vogue. Jane se interessou pela atuação em 1954, após ter atuado com o pai numa produção beneficente da peça The Country Girl no Teatro Comunitário de Omaha. Ela estudou no Emma Willard School em Troy e na Faculdade Vassar em Poughkeepsie, onde foi uma aluna notável.

Após se formar em Vassar, Jane morou em Paris por dois anos para estudar arte. Ao retornar, se encontrou com Lee Strasberg, da renomado Actors Studio, organização que oferece curso preparatório para atores. De acordo com Jane, Strasberg foi a primeira pessoa, com exceção de seu pai, que lhe disse que tinha talento.

Seus trabalhos no teatro no final da década de 1950 estabeleceram os alicerces para sua carreira no cinema na década de 1960. Ela gravou quase dois filmes por ano até o fim da década a partir de "Tall Story" (1960), no qual recriava uma de suas personagens mais famosas da Broadway: uma líder de torcida que perseguia um astro do basquete, interpretado por Anthony Perkins. Logo em seguida estrelou em "Period of Adjustment" e "Walk on the Wild Side", ambos lançados em 1962. Em "A Walk on the Wild Side", pelo papel de uma prostituta, Jane ganhou o Globo de Ouro de atriz novata mais promissora.

Em 1963 ela estrelou "Sunday in New York". O jornal Newsday afirmou que Jane se tratava da "mais adorável e talentosa de todas da nossa nova geração de atrizes". Entretanto, Jane também tinha seus depreciadores: no mesmo ano, o Harvard Lampoon a nomeou a pior atriz do ano. O maior avanço da carreira de Jane veio com "Cat Ballou" (1965), em que interpretava uma professora de escola rural que virava fora-da-lei. O filme, uma comédia western, recebeu cinco indicações ao Oscar (venceu o de melhor ator para Lee Marvin) e foi um dos dez filmes de maior bilheteria do ano nos Estados Unidos. Este filme é considerado para muitos o ponto de ruptura na carreira de Jane, trazendo-a para o estrelato aos 28 anos de idade. Após este filme, ela estrelou nas comédias "Any Wednesday" (1966) e "Barefoot in the Park" (1967), a última ao lado de Robert Redford.

Jane Fonda em "Barbarella" (1968) de Roger Vadim, uma paródia da ficção científica.
Em 1968 interpretou o papel-título na paródia de ficção científica "Barbarella", dirigida por seu então marido, o cineasta francês Roger Vadim, que estabeleceu seu status como um dos maiores símbolos sexuais dos Estados Unidos no fim dos anos 1960. Em contraste, atuou no drama "They Shoot Horses", Don't They?" em 1969, papel que consagrou-a como uma das melhores atrizes de sua geração e pelo qual recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz. No mesmo período, escolhia cuidadosamente os filmes em que atuaria, rejeitando os papéis principais em "O Bebê de Rosemary" e "Bonnie and Clyde".

Barbarella virou boneca antes da Barbie.
Todo o talento dramático de Jane foi confirmado pela sua atuação nos filmes "Klute", de 1971, onde interpretou uma prostituta perseguida por um assassino psicopata, e "Amargo Regresso", de 1978, uma crítica ácida à Guerra do Vietnã, filmes que lhe valeram dois prêmios Oscar de melhor atriz.

Em 1972, Jane estrelou como uma repórter ao lado de Yves Montand em "Tout va bien", clássico marxista de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin. No mesmo ano, os diretores fizeram um documentário intitulado "Letter to Jane", no qual ficam quase duas horas comentando sobre uma foto da atriz quando de sua visita ao Vietnã do Norte.

Entre "Klute" em 1971 e "Fun With Dick and Jane" em 1977, passou grande parte da primeira metade da década sem um grande sucesso, apesar de ter estrelado em filmes alternativos aclamados como "A Doll's House" (1973), "Steelyard Blues" e "The Blue Bird" (1976), o último, filmado na União Soviética, ao lado de Elizabeth Taylor, Ava Gardner e Cicely Tyson. A partir de comentários atribuídos a ela em entrevistas, alguns consideraram que ela havia sido culpada profissionalmente por suas opiniões políticas. Entretanto, Jane nega as afirmações em sua autobiografia de 2005 "My Life So Far". Para ela, sua carreira floresceu após suas declarações contra a Guerra do Vietnã.

Esse florescimento deu-se, em partes, pela fundação de sua própria produtora, a IPC Films, com a qual fez filmes que a ajudaram a conquistar de volta o estrelato. O filme de comédia de 1977 "Fun With Dick and Jane"" é geralmente considerado seu "retorno" às bilheterias. No mesmo ano, conseguiu boas críticas por sua performace como a dramaturga Lillian Hellman em "Julia", filme pelo qual receberia sua terceira indicação ao Oscar de melhor atriz. Durante o período, Jane anunciou que estrelaria apenas em filmes com temas importantes, razão pela qual rejeitou o papel principal em "An Unmarried Woman". Em 1979 ela estrelou nos sucessos "The China Syndrome", sobre o encobrimento de um acidente nuclear, pelo qual recebeu sua quinta indicação ao Oscar de melhor atriz, e "The Electric Horseman" novamente com Redford.

Jane Fonda fotografada por Peter Basch no começo dos anos 1960.
Em 1980, Jane estrelou em "Nine to Five" ao lado de Lily Tomlin e Dolly Parton. O filme foi um dos maiores sucessos de bilheteria de sua carreira.

Jane estava querendo fazer um filme com seu pai há algum tempo, esperando que a relação entre os dois melhorasse. Ela atingiu à meta quando comprou os direitos de filmagem de "On Golden Pond" (1981). Katharine Hepburn se juntou aos três no elenco principal. O filme rendeu a Jane sua única indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz (coadjuvante/secundária) e a Henry seu único Oscar de melhor ator, que Jane aceitou em seu nome, uma vez que ele estava muito doente. henry Fonda morreria cinco meses depois.

Jane continuou a aparecer em filmes de destaque na década de 1980, mais notavelmente como a Dr. Martha Livingston em "Agnes of God" (1985). Um ano antes recebeu seu único prêmio Emmy pelo filme feito para a televisão "The Dollmaker". Jane receberia sua sexta e última indicação ao Oscar de melhor atriz pelo thriller "The Morning After" de 1986, no qual interpreta uma alcóolatra suspeita de assassinato.

Em abril de 1991, após três décadas de carreira no cinema, Jane Fonda anunciou que estava se aposentando da indústria cinematográfica e não tinha intenções de voltar a atuar. Em maio de 2005, entretanto, ela retornou às telas com o sucesso de bilheteria "Monster-in-Law", em que contracenou com Jennifer Lopez. Em 2007 ela estrelou em "Georgia Rule" de Garry Marshall, ao lado de Felicity Huffman e Lindsay Lohan.

A linda senhora Jane Fonda sempre com aquele corpo e rostinho de boneca. Exercícios só fazem bem.
Em 2009, Jane retornou aos palcos da Broadway, em sua primeira performance desde 1963, em "33 Variations" de Moises Kaufman. Pelo papel, ela recebeu uma indicação ao Tony de melhor atriz.

De 14 de agosto de 1965 a 16 de janeiro de 1973, Jane foi casada com o cineasta francês Roger Vadim, que a dirigiu em Barbarella. Com ele teve Vanessa (n. 1968), também atriz.

Em 1973 Jane casou-se com o então ativista político e depois senador Tom Hayden, um dos ícones da nova esquerda, e envolveu-se inteiramente com as questões políticas de seu país, combatendo a Guerra do Vietnã e a política externa do país, chegando a ir a Hanói e posado para fotografias sentada num canhão de defesa antiaérea da cidade, o que lhe valeu a ira do governo Nixon e dos conservadores, além do apelido de "Hanói Jane", que lhe persegue até os dias de hoje, pelos direitistas mais radicais e pelos veteranos de guerra. Com Hayden, Jane teve Troy Garity (n. 1973), também ator. Os dois também adotaram Mary Luana Williams.

Após seu casamento, em 21 de dezembro de 1991, com o empresário das comunicações e milionário Ted Turner, então dono da rede de televisão a cabo CNN, Jane decidiu se aposentar da carreira de atriz e passou a se dedicar exclusivamente a produzir vídeos sobre ginástica aeróbica e preparação física que se tornaram um grande sucesso. O primeiro deles, produzido em quando ainda era atriz, em 1982, vendeu 17 milhões de cópias apenas nos EUA. O casamento duraria até 22 de maio de 2000. Apesar do divórcio, Jane ainda vive em Atlanta, no estado da Geórgia.

Principais prêmios e indicações


Oscar

1970: Melhor atriz principal – A Noite dos Desesperados (indicada)
1972: Melhor atriz principal – Klute - O Passado Condena (vencedora)
1978: Melhor atriz principal – Julia (indicada)
1979: Melhor atriz principal – Amargo Regresso (vencedora)
1980: Melhor atriz principal – Síndrome da China (indicada)
1982: Melhor atriz (coadjuvante/secundária) – Num Lago Dourado (indicada)
1987: Melhor atriz principal – A Manhã Seguinte (indicada)

Globo de Ouro

1962: Melhor revelação feminina (vencedora)
1963: Melhor atriz em filme cômico ou musical – Period of Adjustment
1966: Melhor atriz em filme cômico ou musical – Dívida de Sangue (indicada)
1967: Melhor atriz em filme cômico ou musical – Qualquer Quarta-Feira (indicada)
1970: Melhor atriz em filme dramático – A Noite dos Desesperados (indicada)
1972: Melhor atriz em filme dramático – Klute - O Passado Condena (vencedora)
1973: Prêmio Henrietta de atriz favorita do mundo (vencedora)
1978: Melhor atriz em filme dramático – Julia (vencedora)
1979: Melhor atriz em filme dramático – Amargo Regresso (vencedora)
1979: Prêmio Henrietta de atriz favorita do mundo (vencedora)
1980: Melhor atriz em filme dramático – Síndrome da China (indicada)
1980: Prêmio Henrietta de atriz favorita do mundo (vencedora)
1982: Melhor atriz (coadjuvante/secundária) – Num Lago Dourado (indicada)
1985: Melhor atriz em minissérie ou filme feito para a TV – The Dollmaker (indicada)

Filmografia principal

La Ronde (1964) | Cat Ballou (1965) | Any Wednesday (1966) | Barefoot in the Park (1967) | Barbarella (1968) | They Shoot Horses, Don't They? (1969) | Klute (1971)  | A Doll's House (1973)  | Fun with Dick and Jane (1976) | Julia (1977) | Coming Home (1978) | California Suite (1978) | The China Syndrome (1979) | The Electric Horseman (1979) | Nine to Five (1980) | Rollover (1981) | On Golden Pond (1981) | Agnes of God (1985) | The Morning After (1986) | Old Gringo (1989) | Stanley & Iris (1990) | Monster-in-Law (2005) | Georgia Rule (2007).

Fonte: Wikipédia.

sábado, 10 de novembro de 2012

A menina que suava em cores

Tínhamos escrito um bem documentado artigo sobre a menina Vera Lúcia, a tal mineirinha que sua colorido. 0 trabalho era muito bem documentado e de grande importância para o estudo do fenômeno que ora preocupa a imprensa carioca e deixa um pouco off side a ciência de um modo geral. Isto porque, sendo um artigo de Stanislaw, já era obra de valor, valor este que aumentava, ao levar-se em conta que somos um dos que mais fizeram mulher suar pela aí.

É lógico que suor colorido para nós também é bossa nova, ainda que não sejamos supersticiosos a ponto de achar que Vera Lúcia é milagrosa. Isto não.

Que nos recordemos assim, a grosso modo, só Primo Altamirando é que, certa vez, começou a suar colorido. Aliás, não era bem colorido. Ele começou a suar numa cor só: o preto — mas Tia Zulmira, com um pouco de água e um pedaço de sabão, acabou com o milagre.

Nosso artigo sobre o suor colorido de Vera Lúcia chamava a atenção dos leitores para a inveja que vinha causando em alguns coleguinhas jornalistas, como o Timbaúba — por exemplo — do "Diário Carioca", que escreveu uma porção de bobagens sobre o que chamou de "literatura química", dizendo que Vera Lúcia suava por causa da reação de certos ácidos etc. etc. E isto é pura inveja do coleguinha porque não existe ninguém mais ácido do que o Dr. José Maria Alkmim e, que saibamos, nunca o ex-Ministro da Fazenda suou em cores.

Dizíamos também que Vera Lúcia poderia ajudar na recuperação do cruzeiro, valorizando a moeda no exterior, ao ser exportada com seu suor em tecnicolor, para Hollywood, onde faria um Metro-musical daqueles bem chatos, com Debbie Reynolds, um irmão do Mário Lanza e a orquestra do Ray Coniff.

Mas nosso artigo não foi publicado, e mesmo assim surgiram logo notícias pessimistas, atribuindo aos pais de Vera Lúcia uma chantagem. Veio um médico para as manchetes dizendo que eles é que davam determinada droga pra moça beber e suar azul de manhã, verde ao entardecer e roxo de noite, com variações coloridas nas horas suplementares, insinuando que os pais de Vera Lúcia são cafiolas de suor. Se assim é, já não está mais aqui quem falou. Mesmo sendo um cidadão useiro e vezeiro em fazer mulher suar, Stanislaw se abstém de opinar.

Felizmente nosso artigo não foi publicado, pois ia suscitar polêmicas. Se o suor de Vera Lúcia é pré-fabricado, já não existe mais a mística em torno de sua transpiração.

E é pena, porque esta seria a segunda Vera Lúcia a fazer milagre, num curto espaço de tempo. A outra é a Vera Lúcia da Rádio Nacional, que conseguiu se eleger "Melhor Cantora de 1959", no suado concurso da "Revista do Rádio".

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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

O dedo

Foi em São Paulo num ônibus. Havia um dedo; aliás, como é natural em coletivos, havia diversos dedos. Em coletivos, comumente, acontece mão-boba, quanto mais dedo.

Não. Não era um dedo-bobo, nem pode ser comparado com os demais dedos que viajavam no Santa Clara—Paissandu, da Empresa Vila Paulista Ltda., porque estes estavam em seus respectivos lugares, nas mãos de seus donos, enquanto que o dedo citado estava sozinho, no chão do ônibus, apontando sabe lá Deus para onde.

Dirão vocês: então era um dedo-bobo. Mas nós, mais ponderados pouquinha coisa, explicamos que não era bobo. Era um dedo de responsabilidade, pois portava aliança.

Deu-se que o Senhor Leonel, motorista do veículo, já achara chato quando um passageiro, que talvez fosse Primo Altamirando (Mirinho foi a São Paulo visitar um traficante de cocaína, seu amigo), ao descer do ônibus dissera: "ó meu... deixaram um dedo aqui pra você." Achara chato porque a piada não tinha graça nenhuma.

Mas, pouco depois, um outro passageiro ia saindo, olhou para baixo e viu o dedo. Estava no mesmo lugar que o passageiro anterior indicara, apontando com outro dedo, lá dele. O passageiro, mais minucioso em suas pesquisas, em vez de avisar ao motorista, abaixou-se e pegou o dedo. Era um dedo casado com Dona Paula Yukiawone vai fazer onze anos na próxima segunda-feira.

Como, minha senhora? Como é que chegaram a esta conclusão? Porque o dedo tinha aliança, madame. Tinha aliança e, na aliança, estava escrito "Paula Yukiawone— 25-1-1949". Logo, é elementar, my dear Watson!

Agora, o que se faz com um dedo transviado (e aqui não vai nenhuma insinuação de que o marido de Dona Paula seja lambretista), ninguém sabe.

Carregaram-no para a Delegacia de Homicídios, porque do dedo pra lá não se conhece o dono. A Polícia está na expectativa de que o dono direito do dedo ou Dona Paula, que casou com o dedo e o resto que normalmente acompanha um dedo, venha reclamá-lo. E, enquanto espera, não sabe o que fazer ou como agir.

E é profundamente incômodo para a Polícia ficar olhando aquele dedo que não aponta para lugar nenhum. Mas o jeito é esperar, porque não é provável que seguindo para o lugar que o dedo aponta a Polícia encontre o dono.

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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

Descoberta nova espécie de dinossauro

Xenoceratops foremostensis era herbívoro e tinha
duas toneladas, diz estudo. Parente do triceratops,
viveu há  cerca de 80 milhões de anos.

Um grupo de cientistas do Canadá descobriu uma nova espécie de dinossauro com chifres. Conhecida como Xenoceratops foremostensis, a espécie foi identificada a partir de fósseis originalmente coletados em 1958.


Medindo aproximadamente 6 metros de altura e pesando mais de duas toneladas, o dinossauro seria, de acordo com os pesquisadores, herbívoro e representa o mais antigo exemplar com chifres do Canadá. A pesquisa foi publicada no periódico Canadian Journal of Earth Sciences.

"Surgidos há 80 milhões de anos, os dinossauros com chifres da América do Norte passaram por uma explosão evolucionária", afirmou o autor do estudo e curador de paleontologia vertebrada no Museu de História Natural de Cleveland, Dr. Michael Ryan. "Xenoceratops nos motra que mesmo os mais antigos ceraptors (grupo de grandes dinossauros) tinham chifres gigantes na cabeça e que a ornamentação do crânio só se tornaria mais elaborada com a evolução de novas espécies", afirma.

O termo Xenoceratops significa "alien de chifre no rosto", referindo-se à incomum distribuição de chifres na cabeça do animal e à escassez de fósseis desses chifres nos registros de material encontrado. O artigo afirma também que o dinossauro possuía um bico semelhante ao de papagaio com dois longos chifres acima dos olhos.

O novo dinossauro foi descrito a partir de fragmentos do crânio de pelo menos três indivíduos que foram coletados na década de 1950, mas não foram estudados anteriormente. Eles estão armazenados no Museu Natural de Ottawa, no Canadá. A descoberta é a última de uma série de resultados encontrados pelos pesquisadores Michael Ryan e David Evans como parte do Projeto Dinossauro da região sul de Alberta, desenvolvido para preencher as falhas no conhecimento de répteis pré-históricos e estudar sua evolução.

"A descoberta de espécies antes não conhecidas ressalta a importância de ter acesso a coleções científicas", afirma Kieran Sheperd, coautor do estudo e curador de paleobiologia no Museu Natural do Canadá. "Essas coleções fornecem potencial para muitas novas descobertas", completa.

Fonte: Terra

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Cemitério constrói banheiro em forma de caixão


Um cemitério em Millaa Millaa (Austrália) estava com grande dificuldade de obter verba municipal para construir um banheiro no local. Então decidiu agir por conta própria e com humor. Fez um banheiro em forma de um caixão!

Na porta, "RIP" (descanse em paz).

"Fizemos com a melhor das intenções", disse Pat Reynolds, presidente da Câmera de Comércio local, ao "Courier Mail".


Fonte: O Globo - pagenotfound

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Enganai-me sempre assim

No mundo há poucos seres tão libertinos quanto o cardeal de… do qual, considerando-se que ainda seja homem saudável e vigoroso, permiti-me guardar o nome em segredo. Sua eminência tem um acordo feito em Roma com uma dessas mulheres cuja profissão oficiosa é fornecer aos devassos objetos necessários ao alimento de suas paixões; todas as manhãs ela leva até ele uma jovem de no máximo treze a catorze anos, a qual monsenhor só usufrui da maneira inconveniente com que os italianos não raro se deliciam, de modo que a vestal, saindo das mãos de Sua Grandeza tão virgem quanto antes, possa, uma segunda vez, ser vendida como nova a algum libertino mais decente.

A matrona, totalmente a par das máximas do cardeal, não encontrando, certo dia, a seu alcance, o objeto cotidiano o qual era obrigação sua fornecer, imaginou travestir como uma menina um belíssimo menino do coro da igreja do chefe dos apóstolos; colocaram-lhe uma peruca, uma touca, saiotes, e todo o aparato falso que se devia impor ao santo homem de Deus. Todavia, não se lhe pôde conferir o que realmente ter-lhe-ia assegurado semelhança total com o sexo que ele imitava; mas essa circunstância muito pouco embaraçava a alcoviteira…

– Ele não pôs as mãos lá nestes dias, – dizia àquela dentre suas companheiras que a ajudava na trapaça ele só visitará, com toda a certeza, o que assemelha essa criança a todas as meninas do universo; assim, nada devemos temer…

A mãezinha se equivocara; decerto ignorava que um cardeal italiano era homem de tato muito delicado, e gosto apurado o bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira vez:

- Per Dio santo, - exclama o homem de Deus – sono ingannato, questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!

E ele verifica… Contudo, nada acontecendo de muito embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-me sempre assim. Mas quando a operação terminou:

- Senhora, – diz ele à aia – não vos censuro por vossa confusão.

- Monsenhor, desculpai-me.

- Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque… O que eu não vir no primeiro momento, verei neste aqui.
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SADE, Marquês de - Contos Libertinos

O marido padre

Conto provençal

Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinhão, e a de Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas isolado, denominado Saint-Hilaire, assentado no cimo de uma montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita.

Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire - eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas todas as portas de quantos estão à sua volta.

Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge.

No que tange ao Sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir.

Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna (1), rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente?

Desse modo, esse homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da Sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por esposo. Conforme já dissemos, o Sr. Rodin parecia fazer vistas grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes em que o queriam bem longe.

Entretanto, a ocasião era boa. A ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor-lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a Sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la...Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a sair, Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite... Só faltava, portanto, a ocasião.

Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte, Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à realização dos seus desejos.

- Oh, por Deus, senhor magistrado, - diz o monge ao amigo - como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo num momento mais oportuno do que este; ando às voltas comum caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim de serventia sem par.

- Do que se trata padre?

- Conheceis Renoult, de nossa cidade.

- Renoult, o chapeleiro.

- Precisamente.

- E então?

- Pois bem, esse patife me deve cem écus(2), e acabo de saber que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto vos falo, ele já tenha abandonado o Condado... Preciso muitíssimo correr até lá, mas não posso fazê-lo.

- O que vos impede?

- Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a missa fosse para o diabo, e os cem écus voltassem para o meu bolso.

- Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

- Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.

- Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

- Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo de... A meia légua daqui; criatura angelical que, à força da austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido; creio que me dissestes que estudastes para ser padre.

- Certamente.

- Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.

- Faço-o como um arcebispo.

- Ó meu caro e bom amigo! - prossegue Gabriel lançando-se ao pescoço de Rodin - são dez horas agora; por Deus, vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça... Sim, meu amigo, a caça, creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região!

- Vosso plano é bom - diz Rodin - e, para vos fazer um favor, não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria pecado nisso?

- Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum, talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado venial.

- Mas seria preciso repetir a liturgia?

- E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós... Reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais... Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz... eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.

- Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora! Ainda faltam duas horas para o almoço!

- E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes alguma coisa.

- E a tal missa que é preciso celebrar?

- Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-la; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

- Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.

- Bem - diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer boas recomendações do amigo ao sacristão... - contai comigo, meu caro; antes de duas horas estarei aqui - e, satisfeito, o monge vai embora.

Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita tão imprevista.

- Apressemo-nos, minha cara - diz o monge, esbaforido - apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante... Um copo de vinho, e mãos à obra!

- Mas, e quanto a meu marido?

- Ele celebra a missa.

- Celebra a missa?

- Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita, atirando a Sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano...

O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes...

Ele se põe a persuadir a Sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.

- Mas, meu anjo - diz, enfim, a beldade, perfeitamente persuadida - sabeis que se esgota o tempo... Devemos nos separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.

 - Não, não, minha querida - diz o carmelita, apresentando outro argumento a Sra. Rodin -, deixai estar, meu coração, temos todo o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós... Uma vez mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia consagrada.

Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.

- Apenas o quod aures - diz ele - embaraçou-me um pouco; eu queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu me recompusesse; e quanto aos cem écus , padre?

- Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras partes.

Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a Gabriel.

- Celebrei a missa - dizia o grande tolo, rindo com todas as forças - sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as espáduas de Renoult com um forcado... Ele dava com a vara; que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! Boa e querida mãezinha! Como essa história é engraçada, e como os cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto eu celebrava a missa?

- Ah! Meu amigo - responde a mulher - parecia inspiração dos céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos; enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja, meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.
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SADE, Marquês de - Contos Libertinos

(1) Antiga medida de comprimento de três palmos; (2) Antiga moeda francesa.

Os centauros

Caetano Veloso - 1968
Fala-se em "Poder Jovem", na "Jovem Revolução" e um padre de passeata, em seu veemente sermão, chamou Nossa Senhora de "a mãe do Jovem Salvador". Vejam: — é tão importante ser jovem que já se providenciou uma idade promocional para Jesus. Há também os que proclamam a razão da idade. Nada tenho a objetar. Que seja dado o poder aos jovens, e que eles o exerçam, e que façam o mundo à sua imagem e semelhança.

A meu ver, porém, chegou a hora de se falar também da "jovem obtusidade". Que ela existe como uma realidade concreta, que se pode apalpar, farejar, não há dúvida. Basta olhar e faremos a singela, a tranqüila constatação visual. Se me pedirem fatos, eu direi: — "Vamos aos fatos".

Sábado, fiquei em casa. Fazia um frio cadavérico. Tenho um amigo que se refere ao frio em termos de "julgamento moral". Quando a aragem vai gelando os edifícios e as esquinas, ele põe-se a esbravejar:

— "Ah, frio canalha! Ah, frio indecente!".

Para a sua indignação, o frio era "torpe", era "obsceno", era "sórdido".

Sábado, tive também vontade de xingar o frio dessa forma direta, pessoal e crudelíssima. Fiquei vendo televisão, com três suéteres. Ia passar o teipe do Festival da Canção. Não sei se não teria preferido um bangue-bangue.

Mas, vamos lá. Começa o festival com uma panorâmica da platéia. Verificou-se, ao primeiro olhar, que todo mundo lá era jovem. Só rapazes, só mocinhas. É apavorante. No passado ocorria o inverso: — o Brasil era uma paisagem de velhos. Nos bondes, só os velhos vinham sentados; os jovens ficavam de fora, pendurados no balaústre. E as senhoras grávidas pediam para o filho já nascer setuagenário e de guarda-chuva, como o personagem de Gogol.

Hoje, o velho tem vergonha de o ser. O padre de passeata precisa fazer uma plástica em Jesus e remoçá-lo (talvez assim o Salvador se salve, sobreviva etc. etc.). Mas, como ia dizendo: — não havia na platéia um sujeito de meia-idade, uma viúva, ou, como quer a gíria perversa, um coroa. Uma platéia sem coroa e ocupada por uma mocidade ululante e salubérrima. Imaginei que estaria, ali, a melhor juventude paulista.

E era de um óbvio escandaloso a politização dos presentes. Sempre que uma letra fazia uma insinuação política, ou tinha um arroubo ideológico, ou rosnava para os Estados Unidos — a audiência vinha abaixo. Que pasionarias eram as meninas! Lembro-me de uma que assim se manifestava: — tirando os sapatos e batendo com os saltos, um no outro. Ninguém sabia se estava aplaudindo ou vaiando.

Ah, os rapazes, os rapazes! Cavalgavam as cadeiras e atiravam patadas como rútilos centauros.

Mas todas essas impressões paisagísticas são secundárias, irrelevantes. De um altíssimo patético foi a aparição do sr. Caetano Veloso. Ah, esquecia-me de Vandré. Seus versos tinham o seguinte título, de uma malícia ou, melhor dizendo, de uma ironia finíssima: — "Pra não dizer que não falei de flores". E, realmente, para nosso pasmo, ele faz um artigo de fundo contra as flores. Até hoje ainda não sei o que é que o nosso libertário propõe.

Vejamos algumas hipóteses: — quererá ele dizer que a "Grande Revolução" vai acabar com as flores? Ou que só a burguesia mais reacionária aprecia as rosas e, por carambola, a beleza? E que o revolucionário é tão obtuso, tão bestial, tão abjeto que não pode ver uma flor sem chutá-la?

Sim, há várias metáforas no editorial do Vandré e todas absolutamente inescrutáveis. Só uma coisa é certa: — sem que o próprio autor o perceba, tais metáforas são absolutamente contra-revolucionárias.

Mas vejamos o sr. Caetano Veloso. A vaia selvagem com que o receberam já me deu uma certa náusea de ser brasileiro. Dirão os idiotas da objetividade que ele estava de salto alto, plumas, peruca, batom etc. etc. Era um artista. De peruca ou não, era um artista. De plumas, mas artista. De salto alto, mas artista. E foi uma monstruosa vaia.

A menina, já citada, batia com os saltos dos sapatos, em delírio. Mas era um concorrente que vinha, ali, cantar; simplesmente cantar.

Mas os jovens centauros não deixaram. Na minha casa, lembrei-me de uma velha solenidade nazista: — a queima de livros. Imaginei que, a qualquer momento, a guarda vermelha ia subir ao palco para queimar o próprio Caetano Veloso. Não me admiraria nada que, no futuro, os nossos jovens socialistas queimem poetas no meio da rua.

Mas estou aqui fazendo uma defesa inútil de Caetano Veloso. Ninguém reage melhor do que ele mesmo. Quis cantar e esmagaram seu canto. A massa coral repetia, em furiosa cadência, uma obscenidade espantosa. Era o massacre de um artista, um desesperado artista que se propunha a cantar o "É proibido proibir".

A canção era a flor que o nosso Vandré quer expulsar do seu horrendo paraíso socialista. Já nenhum telespectador suportava mais a humilhação, que se transferia para as casas. (E a jovem massa insistia no refrão torpe).

Súbito, os brios de Caetano Veloso se eriçaram mais que as cerdas bravas do javali. Ele começou a falar. Era um contra 1500. E um que dizia a sua feroz mensagem nos trajes mais impróprios para o seu rompante.

Sim, estava de peruca, plumas, batom, salto alto etc. E disse as verdades que estavam mudas, sim, as verdades que precisavam ser ditas — urgentes, inadiáveis e santas verdades. Ainda bem que milhões de telespectadores as ouviram. Se bem me lembro, eis as suas palavras:

— "É isso a juventude? E vocês são políticos? Querem o poder! Vocês não sabem nada, não entendem nada! Analfabetos em política e arte! Se entendem de política como entendem de música, desgraçado Brasil!".

Não me lembro de tudo. Houve um momento em que Caetano Veloso comparou, e com exemplar justiça, as duas vergonhas: — a vaia obscena e a invasão do Teatro Ruth Escobar.

Naquela ocasião, depois do espetáculo de Roda viva, uns quarenta bandidos espancaram o elenco. Havia uma atriz grávida, que gritou: — "Estou grávida!". Levou um chute na barriga. Foi pisada como uma flor do nosso Vandré.

E dizia Caetano Veloso:

— "Vocês não são melhores! São iguaizinhos!".

Os idiotas da objetividade hão de perguntar:

— "E a peruca? E as plumas? E o batom? E o salto alto?".

Eu responderia que qualquer um pode ter uma indignação à Zola. Quando morreu o autor de Germinal, disse alguém, à beira do túmulo:

— "Zola foi um momento da consciência humana".

No teipe de sábado tivemos, pela fúria de Caetano Veloso, um momento da consciência brasileira. E vimos como a sua implacável lucidez acuou e bateu a "jovem obtusidade".

[26/9/1968] 
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

El arzobispo de la revolución

Quando era crítico teatral, Paulo Francis disse certa vez: — "O hospital é mais importante do que o teatro". Não me lembro se escreveu exatamente assim, mas o sentido era este. E o articulista tinha a ênfase, a certeza de quem anuncia uma verdade inapelável e eterna.

Ao acabar o texto, voltei à frase e a reli: — "O hospital é mais importante do que o teatro".

Fiz para mim mesmo a pergunta: — "Será?".

Já me pareceu imprudente que se comparassem funções e finalidades diferentes. Para que serve um teatro e para que serve um hospital? Por outro lado, não vejo como um crítico de teatro, no gozo de plena saúde, possa preferir uma boa rede hospitalar às obras completas de William Shakespeare.

De mais a mais, o teatro era, na pior das hipóteses, o seu ganha-pão. Imaginem um médico que, de repente, no meio de uma operação, começasse a berrar: — "Viva o teatro e abaixo o hospital!".

A mim, parecem gêmeas as duas contradições: — de um lado, o crítico que prefere o hospital; de outro lado, o cirurgião que prefere o teatro. É óbvio que a importância das coisas depende de nós.

Se somos doentes, o hospital está acima de tudo e de todos; caso contrário, um filme de mocinho, ou uma Vida de Cristo ali no República, ou uma burleta de Freire Júnior, é uma delícia total. Mas volto ao Paulo Francis.

Alguém que lesse o artigo citado havia de pensar: — "Bem. Esse crítico deve estar no fundo da cama, moribundo, já com a dispnéia pré-agônica. E, por isso, prefere o hospital". Engano. Repito que, ao escrever aquilo, Paulo Francis nadava em saúde. E por que o disse?

O leitor, em sua espessa ingenuidade, não imagina, como nós, intelectuais, precisamos de poses. Cada frase nossa, ou gesto, ou palavrão é uma pose e, diria mesmo, um quadro plástico.

Ah,as nossas posturas ideológicas, literárias, éticas etc. etc. Agimos e reagimos de acordo com os fatos do mundo. Se há o Vietnã nós somos vietcongs; mas se a Rússia invade a Tchecoslováquia, vestimos a pose tcheca mais agressiva. E as variações do nosso histrionismo chegam ao infinito.

Imagino que, ao desdenhar do teatro, o Paulo estivesse fazendo apenas uma pose.

Bem. Fiz as divagações acima para chegar ao nosso d. Hélder. Está aqui na minha mesa um jornal colombiano. É um tablóide que... Um momento. Antes de prosseguir, preciso dizer duas palavras.

Domingo, na TV Globo, o Augusto Melo Pinto chamou-me num canto e cochichou:

— "Você precisa parar com o d. Hélder".

Faço um espanto: — "Por quê?".

E ele: — "Você está insistindo demais". Pausa e completa: — "Você acaba fazendo de d. Hélder uma vítima".

Disse-lhe da boca para fora: — "Você tem razão, Gugu". E paramos por aí. Mas eis a verdade: — o meu amigo não tem nenhuma razão. Gugu inverte as posições. Se há uma vítima, entre mim e d. Hélder, sou eu.

Outrora, Victor Hugo vivia bramando: — "Ele! Sempre ele!". Falava de Napoleão, o Grande, que não lhe saía da cabeça. Com todo o universo nas suas barbas a inspirá-lo, Hugo só via na sua frente o imperador. Bem sei que não sou Hugo, nem d. Hélder, Bonaparte. Mas eu podia gemer como o autor de Os miseráveis: — "Ele! Sempre ele!". Realmente, sou um território solidamente ocupado pelo querido padre.

Dia após dia, noite após noite, ele obstrui, engarrafa todos os meus caminhos de cronista. É, sem nenhum favor, uma presença obsessiva, sim, uma presença devoradora.

Ainda ontem, aconteceu-me uma impressionante. Tarde da noite, estava eu acordado. Ai de mim, ai de mim! Sofro de insônias. Graças a Deus, me dou bem com as minhas insônias e repito: — nós nos suportamos com uma paciência recíproca e quase doce. Mas não conseguia dormir e levantei-me. Fui procurar uma leitura. Procura daqui, dali e acabei apanhando um número de Manchete.

E quem havia de brotar, da imagem e do texto? O nosso arcebispo. Quatro páginas de d. Hélder! E, súbito, minha insônia foi ocupada pela sua figura e pela sua mensagem. Primeiro, entretive-me em vê-lo; em seguida passei à leitura. E há um momento em que o arcebispo diz, por outras palavras, o seguinte: — o mundo pensa que o importante é uma possível guerra entre Leste e Oeste. E d. Hélder acha uma graça compassiva em nossa infinita obtusidade.

Se a Rússia e os Estados Unidos se engalfinharem; se as bombas de cobalto caírem nos nossos telhados ou, diretamente, em nossas cabeças; se a OTAN começar a disparar foguetes como um Tom Mix atômico — ninguém se assuste. O perigo não está aí. Não. O perigo está no subdesenvolvimento.

Leio a fala de d. Hélder e a releio. Eis a minha impressão: — esse desdém pelas armas atômicas não me parece original. Sim, não me parece inédito.

E, súbito, um nome e, mais do que um nome, uma barriga me ocorre: — Mao Tsé-tung. Certa vez, Mao Tsé-tung chamou liricamente a bomba atômica de "tigre de papel". Foi uma imagem engenhosa e até delicada. E vem d. Hélder e, pela Manchete, diz, por outras palavras, a mesmíssima coisa.

O homem pode esquecer o seu pueril terror atômico. Quem o diz é o arcebispo e ele sabe o que diz.

Mas objetará o leitor: — e aquela ilha em que a criança é cancerosa antes de nascer? Exato, exato. Vejam bem o milagre: — ainda não nasceu e já tem o câncer. O leitor, que é um piegas, perguntará por essas crianças. Mas ninguém se aflija, ninguém se preocupe. A guerra nuclear não importa.

Eis o que eu não disse ao Gugu: — como esquecer uma figura que diz coisas tão corajosas, inteligentes, exatas, coisas que só ele, ou Mao Tsé-tung, ousaria dizer? Sabemos que o ser humano não diz tudo.

Jorge Amado tem uma personagem que vive puxando barbantes imaginários que a enrolam. Os nossos limites morais, espirituais, humanos, ou que outro nome tenham, os nossos limites são esses barbantes. Há coisas que o homem não diz, e há coisas que o homem não faz. Mas deixemos os atos e fiquemos nas palavras. O que me espanta é a coragem que leva d. Hélder a dizer tanto. Há um élan demoníaco nessa capacidade de falar demais. Continuemos, continuemos.

No dia seguinte, veio o "Marinheiro Sueco" trazer-me, em mão, um jornal colombiano. E, novamente, agora em castelhano, aparecia d. Hélder. Ele começava na manchete: — "EL ARZOBISPO DE LA REVOLUCIÓN". Em seguida, outra manchete, com a declaração do arzobispo: — "ES MÁS IMPORTANTE FORMAR UN SINDICATO DO QUE CONSTRUIR UN TEMPLO".

Eis o que eu gostaria de notar: — na "Grande Revolução", os russos substituíam, nos vitrais, o rosto da Virgem Maria por um focinho de vaca. Jesus tinha a cara de boi, com as ventas enormes. Mas a "Grande Revolução" se fez contra Deus, contra a Virgem, contra o Sobrenatural etc. etc. e, como se verificaria em seguida, contra o Homem. Portanto, ela podia incluir Jesus, os santos, num elenco misto de bois e vacas.

Mas um católico não pode agredir a Igreja com esta manchete: — "Es Más Importante Formar un Sindicato que Construir un Templo". E se o nosso Hélder o diz, estejamos certos:

— é um ex-católico e, pior, um anticatólico.

[25/9/1968] 
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.